Desenvolva coragem suficiente para que você possa se defender e, em seguida, defender outra pessoa. Maya Angelou
Outro dia, em sessão, uma cliente compartilhou comigo um dilema que infelizmente ecoa na vida de muitas mulheres: seu pai, narcisista e ausente nos cuidados com a própria mãe, tentou convencê-la de que ela deveria assumir a responsabilidade pela avó. A justificativa? A velha e sutil chantagem emocional:
“Você vai se arrepender se não ajudar.”
“Ela é sua avó.”
“Você é tão estudiosa, mas não tem coração?”
Detalhe: essa mulher está às vésperas de prestar concurso público para professora de uma Universidade Federal. Ela veio me perguntar se estava sendo egoísta por não assumir os cuidados da avó. E se era justo abrir mão do seu sonho por isso. Minha resposta foi clara e firme:
“Você não está sendo egoísta. Está sendo justa com a sua própria história. Se dedicar aos seus sonhos não é errado. Sua avó e seus pais também já fizeram isso um dia.”
O cuidar é belo, mas não pode ser prisão
Sim, cuidar é maravilhoso. Cuidar é um gesto de amor, de conexão e de gratidão. Retribuir o carinho e a educação que recebemos é um dos atos mais nobres que podemos exercer. Mas esse cuidado precisa ser escolhido, não imposto. Precisa ser compartilhado, nunca delegado exclusivamente a uma só pessoa. E, acima de tudo, o ato de cuidar deve ser livre de culpa e de gênero. Homens também sabem, podem e devem cuidar.
A culpa como ferramenta de controle
Infelizmente, muitas mulheres foram educadas para agradar, ceder e acolher. Desde muito cedo, aprendemos que o cuidado com os outros é uma virtude… mesmo que isso nos custe saúde, projetos, identidade e liberdade. Assim, a culpa vai sendo semeada em nossos caminhos como uma coleira disfarçada de dever.
A culpa aparece quando ousamos dizer “não”. Quando nos priorizamos. Quando nos afastamos de quem nos fere. Quando escolhemos seguir nossos sonhos em vez de carregar os fardos alheios.
Ser empática não significa se sacrificar. Ser amorosa não significa ser tapete. E ser filha, neta, esposa ou irmã não é perder o direito de viver a própria vida.
Quando você rompe ciclos, a culpa grita
Ela grita: “Volta! Fica pequena! Agrada mais um pouco!” Mas agora você sabe: culpa não é bússola. É coleira. E libertar-se dela é um ato de coragem e consciência.
5 passos para se libertar da culpa e ativar sua força:
Questione a origem da culpa.
Essa culpa é realmente sua ou foi colocada em você para te controlar?
Diga “não” com responsabilidade, não com justificativa.
Você não precisa pedir desculpas por priorizar seus sonhos ou sua paz.
Olhe-se no espelho e diga em voz alta:
“Eu me libero da culpa que não é minha. Eu escolho viver com liberdade e verdade.”
Lembre-se: empoderamento exige limites.
Dizer “sim” para você mesma pode ser o maior ato de amor-próprio.
Escreva uma carta à mulher que você está se tornando.
Peça perdão por ter se abandonado. Diga que agora vocês caminham juntas.
Cuidar, sim. Mas com equilíbrio
É possível cuidar e também se cuidar. Amar e também se amar. Retribuir e também crescer. O problema não está no cuidado em si, mas quando ele é esperado como obrigação automática e exclusivamente feminina. Promover a igualdade também passa por repartir o cuidado. Mesmo mulheres que não desejam ser mães ou cuidadoras podem , e devem apoiar, orientar e dividir essas responsabilidades com empatia e consciência.
Por fim, lembre-se:
A culpa é o preço de quem começa a se libertar. Mas liberdade não tem preço. E empoderamento não combina com algemas invisíveis.
Escolha ser livre. Escolha ser sua. Cuide, sim, mas sem se abandonar no processo.
E que a culpa morra de saudade da mulher que você foi… porque aquela já não existe mais
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